Cuidar de si é também escolher onde não estar
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Byung-Chul Han descreve uma sociedade que não é mais governada pela proibição, e sim pelo excesso de possibilidade. Ninguém nos impede de nada. Somos convocados o tempo todo a fazer mais, otimizar mais, aproveitar mais, e o cansaço que resulta disso não vem de opressão externa, vem de uma exigência que assumimos como nossa.
Ele observa que, nesse regime, a capacidade de dizer não se atrofia. Não porque tenha sido proibida, mas porque parece desperdício. Recusar virou sinônimo de perder oportunidade, e a pausa passou a ser lida como falta de ambição.
Há uma lentidão que se perdeu nesse processo, e ela não era ociosidade. Era o tempo necessário para que uma decisão amadurecesse antes de ser tomada. Sem esse intervalo, escolhemos rápido e com frequência escolhemos por reação.
Autocuidado sem exagero é o nome que dou à tentativa de recuperar esse intervalo dentro de um campo onde ele quase desapareceu. Cuidar bem, aqui, inclui decidir onde não estar.
Por que a recusa é parte do cuidado?
Porque toda decisão clínica tem duas listas. A do que será feito e a do que não será, e a segunda costuma ser mais longa. Uma avaliação séria descarta condutas tecnicamente possíveis porque elas não servem àquele caso, e esse descarte é trabalho, não abstenção.
Recusa-se o que compete com um traço que sustenta a identidade do rosto. Recusa-se o que resolveria um detalhe e desorganizaria a proporção. Recusa-se o que agradaria em fotografia e comprometeria a expressão. E recusa-se, muitas vezes, o que a pessoa chegou pedindo, quando a origem do incômodo está em outro lugar.
Há também a recusa temporal, que é dizer não por enquanto. Nem tudo o que tem indicação precisa acontecer agora. Ordem e intervalo fazem parte da técnica, e antecipar etapas é a maneira mais eficiente de perder a leitura do próprio rosto.
Nada disso é conservadorismo. É a diferença entre um plano e uma sequência de reações a estímulos externos.
Como o excesso se instala sem que se perceba?
Devagar, e sempre com justificativa razoável em cada etapa. Ninguém decide, em um único dia, mudar o próprio rosto. Decide-se uma coisa pequena, depois outra, depois uma terceira que corrige o desequilíbrio criado pela segunda.
O olhar se adapta em paralelo. A referência interna se desloca junto com o rosto, de modo que a cada etapa a mudança acumulada parece normal e a próxima parece pequena. É um deslocamento silencioso, e ele não depende de vaidade nem de falta de crítica. Depende apenas de repetição sem intervalo. Descrevi esse mecanismo em por que algumas pessoas ficam com cara de procedimento.
Some a isso a exposição contínua a imagens. Rostos editados, ângulos escolhidos, luz construída. O parâmetro de comparação deixou de ser o rosto das pessoas ao redor e passou a ser uma média impossível, que não existe em nenhum lugar fora da tela.
O resultado é uma demanda que nasce de fora e é sentida como desejo próprio. Separar as duas coisas é um trabalho lento, e ele precisa acontecer antes da conduta, não depois.
O que se ganha ao recusar o padrão de outra pessoa?
Ganha-se o próprio rosto de volta como referência. Isso parece pouco e é quase tudo. Um rosto avaliado a partir do que ele é permite decisões coerentes ao longo de anos. Um rosto avaliado a partir de um modelo externo exige correções permanentes, porque o modelo muda e o rosto não o alcança.
Ganha-se também previsibilidade. Quem trata por diagnóstico sabe por que fez cada coisa e consegue reconstruir o raciocínio meses depois. Quem trata por comparação acumula intervenções sem fio condutor, e a certa altura ninguém sabe mais o que está compensando o quê.
E ganha-se serenidade, que não é um ganho menor. Boa parte da ansiedade estética não vem de um sinal específico, vem da sensação de estar sempre atrasada em relação a algo. Quando o parâmetro volta para dentro, essa urgência perde combustível. É esse deslocamento que descrevo em a filosofia que orienta o consultório.
Que forma tem a pressa quando ela chega ao consultório?
Ela chega com data. Um evento, uma viagem, uma foto marcada, e a partir dessa data se organiza tudo o mais. O prazo passa a definir a conduta, quando deveria ser o contrário, e o que não cabe no prazo é descartado sem exame.
Chega também em forma de lista. A pessoa traz três ou quatro coisas que gostaria de resolver de uma vez, cada uma legítima isoladamente. Executadas juntas, elas se tornam impossíveis de avaliar, porque não há como saber o que produziu o quê quando tudo aconteceu na mesma tarde.
E chega em forma de comparação recente. Alguém viu um rosto que admira, ou notou uma mudança no próprio, e quer responder ainda esta semana. A urgência é sincera, e ainda assim é uma péssima conselheira em decisões que duram anos.
Nesses casos, a conduta mais útil costuma ser propor um intervalo. Reavaliar em algumas semanas, com a queixa escrita, para verificar se ela persiste com a mesma intensidade. Boa parte das demandas nascidas de comparação perde força nesse intervalo, e as que permanecem chegam mais claras, o que torna o plano melhor.
Onde a moda entra e por que ela não deveria decidir?
Ela entra como vocabulário, e é útil nesse papel. Um termo em circulação ajuda alguém a nomear um incômodo que já existia e a procurar avaliação. O problema começa quando o termo chega já com a conduta embutida, como se o diagnóstico fosse dispensável.
Tendência é, por definição, transitória. Rostos não são. Uma decisão que dura anos tomada a partir de uma referência que dura meses é um desalinhamento de escalas, e o custo desse desalinhamento aparece tarde.
Existe ainda a pressão de estar por dentro. Recusar o que todo mundo está fazendo exige uma segurança que nem sempre está disponível no momento da escolha. Parte do trabalho clínico é sustentar essa segurança pela paciente enquanto ela decide, sem apressá-la em nenhuma direção.
Há uma diferença entre recusar por medo e recusar por critério. O medo evita a conversa, adia a avaliação e deixa quadros ativos sem conduta, o que também cobra caro com o tempo. O critério faz o contrário: examina, entende o que existe, e então decide conscientemente não intervir naquilo. Uma recusa informada é leve de sustentar, porque tem razão conhecida.
Indicação, técnica e resposta variam de pessoa para pessoa e dependem de avaliação médica presencial. Nenhum texto substitui esse exame.
Escolher onde não estar é uma forma discreta de cuidado. Ela não produz nada visível, e é justamente por isso que preserva tanto.
Dra. Gabriela Duarte. Médica dedicada à Dermatologia Estética. CRM-GO 34529.
Perguntas frequentes
Recusar um procedimento é o mesmo que não cuidar?
Não. Cuidado inclui decidir o que não fazer, e essa decisão exige diagnóstico. Recusar uma conduta que não tem indicação, ou que competiria com um traço marcante do rosto, preserva o conjunto. O que caracteriza descuido é a ausência de avaliação, não a ausência de intervenção quando ela foi avaliada.
Como saber se estou tratando por indicação ou por comparação?
Uma pista útil é a origem da queixa. Se ela surgiu depois de ver uma imagem, um vídeo ou o rosto de outra pessoa, e não de um incômodo próprio anterior, vale examinar a motivação antes da conduta. Comparação produz demanda rápida, e demanda rápida costuma envelhecer mal em decisões estéticas.
Por que o excesso costuma passar despercebido por quem o vive?
Porque acontece devagar. Cada etapa isolada é pequena e parece justificada, e o olhar se acostuma ao rosto novo antes que a mudança acumulada se torne perceptível. A referência interna se desloca junto com o rosto. Por isso a leitura externa e a reavaliação com intervalo são parte necessária de qualquer plano.
Fazer pouco é sempre a escolha mais segura?
Não é uma regra. Existe subtratamento, e ele também tem custo, especialmente em quadros ativos que pedem conduta. O critério não é quantidade, é adequação entre o que se faz e o que foi diagnosticado. A recusa que protege é a recusa fundamentada, não a hesitação diante de uma indicação clara.
Dra. Gabriela Duarte
Médica dedicada à Dermatologia Estética. CRM-GO 34529.
Atende em Goiânia, com prática voltada a planos de tratamento conduzidos no tempo da pele.
Sobre a médicaConteúdo informativo. Indicação, técnica e resposta variam de pessoa para pessoa e dependem de avaliação médica presencial.
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